O câncer continua sendo uma das principais causas de doença e morte em todo o mundo, com previsão de aumento no número de casos nas próximas décadas. No cenário brasileiro, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 781 mil novos casos por ano para o triênio 2026–2028. No entanto, a complexidade dessa doença vai além de seu impacto na incidência e na mortalidade, refletindo uma condição de muitos fatores resultante da interação entre fatores biológicos, sociais, ambientais e econômicos.
Um artigo recente publicado por Fink e colaboradores na Nature Medicine demonstrou que 37,8% dos novos casos de câncer no mundo estão associados a 30 fatores de risco modificáveis, ou seja, fatores que podem ser alterados, controlados e gerenciados com o objetivo de reduzir a probabilidade de desenvolvimento da doença. O estudo avaliou 36 tipos de câncer em 185 países e revelou que, em 2022, aproximadamente sete milhões de diagnósticos estiveram relacionados a esses fatores, sendo 2,7 milhões (29,7%) em mulheres e 4,3 milhões (45,4%) em homens.
De forma geral, foram analisados fatores como tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal (IMC) elevado, sedentarismo, ausência ou inadequação da amamentação, poluição do ar, radiação ultravioleta, nove agentes infecciosos e 13 exposições ocupacionais. Como resultado, o tabagismo (15,1%), as infecções (10,2%), como as causadas pelo papilomavírus humano (HPV), e o consumo de álcool (3,2%) destacaram-se como os principais contribuintes. Além disso, os cânceres de pulmão, estômago e colo do útero representaram quase metade dos casos potencialmente evitáveis.
Esses resultados reforçam a necessidade de ações integradas de prevenção e rastreamento, fundamentais para reduzir a incidência da doença e promover o diagnóstico precoce. Nesse contexto, a prevenção primária tem como objetivo reduzir a exposição aos fatores de risco modificáveis. São medidas comprovadamente eficazes na diminuição do risco de diversos tipos de câncer, estratégias como:
- Cessação do tabagismo
- Redução do consumo de bebidas alcoólicas
- Prática regular de atividade física
- Manutenção de um peso corporal saudável
- Adoção de uma alimentação equilibrada
- Vacinação contra o HPV
- Proteção contra a exposição excessiva à radiação solar
Paralelamente, a prevenção secundária baseia-se no rastreamento e na identificação precoce da doença, por meio do fortalecimento dos programas de acompanhamento em saúde. Exames periódicos, acompanhamento clínico e a busca por atendimento diante de sinais e sintomas persistentes contribuem significativamente para o diagnóstico em estágios iniciais, quando as chances de sucesso terapêutico são maiores.
Complementando essas estratégias, a pesquisa científica representa a terceira frente essencial no enfrentamento do câncer, ao conectar conhecimento científico à prática assistencial. Nesse contexto, o Núcleo de Ensino e Pesquisa do Instituto Mário Penna vem desenvolvendo estudos clínicos, translacionais e epidemiológicos, voltados à medicina de precisão, com foco na geração de novas estratégias para o cuidado oncológico aplicáveis ao Sistema Único de Saúde (SUS). Entre essas iniciativas, destacam-se pesquisas voltadas à identificação de biomarcadores relevantes para o diagnóstico precoce, a estratificação prognóstica e a predição de resposta terapêutica em diferentes tipos de tumores, como neoplasias ginecológicas, câncer colorretal e tumores do sistema nervoso central, entre outros.
Referências
- FINK, H.; LANGSELIUS, O.; VIGNAT, J.; et al. Global and regional cancer burden attributable to modifiable risk factors to inform prevention. Nature Medicine, 2026. DOI: 10.1038/s41591-026-04219-7.
- MARINO, P.; MININNI, M.; DEIANA, G.; et al. Healthy lifestyle and cancer risk: modifiable risk factors to prevent cancer. Nutrients, 2024.
- MARTINS, L. F. L.; et al. Perfil epidemiológico da incidência de câncer no Brasil e regiões: estimativas para o triênio 2026-2028. Revista Brasileira de Cancerologia, 2026.
Texto produzido por Rafaela Andrade, biomédica, MSc em Ciências Morfofuncionais, apoio técnico no Núcleo de Ensino, Pesquisa e Inovação do Instituto Mário Penna.



