A medicina de precisão representa uma mudança importante na forma de tratar o câncer. Em vez de adotar um único tratamento para todos os pacientes, esse modelo considera as características genéticas de cada tumor para definir a melhor estratégia para cada caso. E para que a personalização do cuidado atinja todo o seu potencial, a Inteligência Artificial (IA) atua como a impulsionadora dessa transformação digital na saúde pública.
O cérebro humano, por mais treinado que seja, tem limitações para analisar rapidamente milhares de dados genéticos e clínicos. É aqui que entra o uso da IA na medicina. O uso de algoritmos inteligentes pode prever como um tumor se comporta, ou seja, se o paciente responderá positivamente a um determinado medicamento.
Um exemplo prático e nacional dessa tecnologia, voltada para o Sistema Único de Saúde (SUS), é o sistema preditivo ElasTag. Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da UFMG, da Funed, da UFU e da startup OncoTag, em parceria com o Instituto Mário Penna.
O sistema analisa o perfil genético de pacientes com câncer de ovário ou câncer de mama triplo-negativo e indica a probabilidade de resposta à quimioterapia com platina. Na prática, isso contribui para tratamentos mais adequados, com mais chances de sucesso e menor exposição a efeitos colaterais desnecessários. Para os profissionais de saúde, funciona como apoio na tomada de decisão. Para o SUS, ajuda a evitar o uso de recursos em terapias que não trariam benefício.
Contudo, a rápida adoção da inteligência artificial traz desafios, sendo o principal deles a necessidade de equilibrar a inovação tecnológica com a proteção dos dados, da autonomia e do bem-estar dos pacientes. O avanço tecnológico jamais pode significar uma dependência excessiva das máquinas em detrimento da avaliação e do acolhimento humano.
Para garantir que esse equilíbrio ocorra na prática, é fundamental destacar a recente normatização do uso da Inteligência Artificial (IA) na medicina em todo o território nacional, publicada em 27 de fevereiro de 2026, no Diário Oficial da União, pelo Conselho Federal de Medicina (Resolução CFM nº 2.454/2026). Este marco regulatório assegura o uso ético, seguro e transparente da tecnologia, estabelecendo que a IA deve ser utilizada estritamente como instrumento de apoio.
A resolução protege o paciente ao determinar que ele tem o direito de ser informado de maneira clara, simples e acessível sempre que um sistema de IA for utilizado no seu diagnóstico ou tratamento. Além disso, reforça que a decisão final continua sendo do médico, preservando a relação de confiança, o diálogo e o acolhimento.
Em resumo, a união entre a inteligência artificial e a medicina de precisão não vem para substituir o olhar clínico, mas para potencializá-lo. Ao seguir diretrizes éticas, garantimos que a tecnologia sirva a um propósito central de salvar vidas com equidade, respeito e inteligência.
Texto produzido pela Dra. Letícia Braga – PhD em genética e oncologia experimental, gerente do laboratório de Pesquisa Translacional do Instituto Mário Penna.



