O câncer colorretal está entre os tipos de maior incidência no Brasil e no mundo. A doença afeta o intestino grosso e o reto e, na maioria dos casos, tem início de forma silenciosa, a partir de pequenas lesões chamadas pólipos. Quando detectado precocemente, as chances de tratamento e cura são muito maiores. Nesse cenário, a campanha Março Azul Marinho reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da disseminação de informação qualificada como estratégias fundamentais para o enfrentamento da doença.
Para além desses fatores, a pesquisa científica ocupa papel central na transformação do cuidado oncológico. É graças ao trabalho de pesquisadores que hoje entendemos melhor como o câncer se desenvolve, quais fatores aumentam o risco da doença e quais tratamentos podem ser mais eficazes para cada paciente.
No Brasil, centros de pesquisa e hospitais trabalham juntos para transformar o conhecimento científico em melhores estratégias de diagnóstico, prevenção e tratamento. Um dos pilares desse ecossistema são os biobancos de amostras biológicas, estruturas que garantem o armazenamento ético e seguro de materiais como sangue, tecidos e dados clínicos. Essas amostras permitem investigar novas formas de identificar o câncer mais cedo, descobrir biomarcadores da doença e desenvolver terapias cada vez mais personalizadas.
No Instituto Mário Penna, a pesquisa translacional em oncologia se consolida como o eixo que aproxima o laboratório da realidade do paciente. O uso de materiais armazenados no biobanco da instituição contribui para estudos que ajudam a compreender melhor o câncer colorretal e outros tipos de tumores. Nesse processo, a participação dos pacientes e da população é fundamental para a manutenção do biobanco e para a continuidade das pesquisas realizadas no Instituto.
A participação de pacientes e da sociedade é fundamental para a sustentabilidade desse modelo. A doação de amostras, mediante consentimento e seguindo todas as normas éticas, pode ajudar a acelerar descobertas científicas que beneficiarão muitas pessoas no futuro. Cada amostra analisada representa uma oportunidade concreta de avanço científico.
O desenvolvimento da pesquisa oncológica na região Sudeste ganha ainda mais força com a articulação entre academia e prática assistencial. No Laboratório de Pesquisa Translacional em Oncologia do NEPI/UFSJ, pesquisadores e corpo clínico do Hospital Luxemburgo, como o Dr. Paulo Guilherme, Dra. Alice Capobiango e o Dr. Marcelo Portes, desenvolvem projetos inovadores que combinam biologia molecular, nanotecnologia e inteligência de dados, com foco na qualificação do cuidado ofertado pelo SUS.
No âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfofuncionais da UFSJ, a equipe investiga o “inflamassoma”, um complexo de proteínas que contribui para compreender como a inflamação influencia o progresso do tumor.
Além disso, em colaboração com a Fiocruz, estudos voltados à análise de citocinas circulantes exploram a dinâmica da resposta imune sistêmica em diferentes estágios do câncer colorretal. Paralelamente, uma parceria com o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) avança no desenvolvimento de um nanossensor capaz de detectar o marcador tumoral CEA em amostras de urina, representando um potencial avanço em métodos diagnósticos menos invasivos.
Inteligência de Dados e a Importância da Lateralidade no CCR
Um dos pilares dessa rede de pesquisa é o trabalho do Dr. Marcelo Portes, que recentemente foi titulado mestre em ciências da saúde pela Faculdade de Ciências Médicas. Foi desenvolvida por ele uma modelagem prognóstica detalhada da nossa população. Seus dados revelaram descobertas cruciais: as margens cirúrgicas mostraram-se o preditor mais forte de mortalidade em pacientes jovens. Surpreendentemente, o estudo alertou que, pacientes mais jovens apresentaram menor tempo livre de progressão da doença. Essa identificação de fatores relevantes foi realizada com o uso de ferramentas de inteligência artificial (IA).
O projeto mais recente, financiado pela Fapemig por meio do edital Compete Minas, busca levar esse conhecimento ao próximo nível. O objetivo é identificar assinaturas genéticas associadas à lateralidade do câncer nesses pacientes e criar uma ferramenta preditiva baseada em IA, que alia dados clínicos relevantes identificados pelo Dr. Marcelo à caracterização molecular dos tumores. Essa ferramenta poderá ajudar os médicos a monitorar a evolução da doença e a prever a resposta aos tratamentos de primeira linha oferecidos pelo SUS, permitindo uma medicina mais personalizada e eficiente para a população mineira. Alinhado ao seu propósito, o Núcleo de Ensino, Pesquisa e Inovação reafirma seu compromisso com o avanço científico e com a geração de soluções inovadoras que contribuam para transformar o futuro do cuidado oncológico.
Texto escrito por Dra. Flávia Santiago, farmacêutica e doutora em Genética pela UFMG, pós-doutoranda do Laboratório de Pesquisa Translacional em Oncologia do Mário Penna.



