Durante o tratamento oncológico, é compreensível que surjam dúvidas quando a resposta à terapia não ocorre no tempo ou da forma esperada. A percepção de que um mesmo diagnóstico pode resultar em trajetórias tão diferentes entre dois pacientes costuma gerar frustração e ansiedade. No entanto, para compreender esse cenário, precisamos olhar para um fenômeno biológico desafiador: a resistência terapêutica.
Longe de ser um fracasso do organismo do paciente, a resistência é uma consequência da evolução celular. Mas como o tumor faz isso na prática? De forma didática, algumas células tumorais adquirem mutações que atuam como verdadeiros escudos de proteção. Elas podem, por exemplo, criar mecanismos que expulsam a quimioterapia da célula antes que o medicamento faça efeito, ou então ativar sistemas de reparo do DNA extremamente rápidos, anulando os danos causados pela radioterapia. Como resultado, o tumor sobrevive e o tratamento perde sua eficácia inicial, exigindo que a equipe médica redefina a estratégia terapêutica.
A chave para entender essas variações de comportamento está no nosso código genético. A informação que define quem somos e como reagimos aos estímulos do ambiente está intimamente registrada em nosso DNA. Da mesma forma que não podemos usar a receita médica de um amigo para tratar os nossos próprios problemas de saúde, não podemos esperar que o câncer se comporte de maneira idêntica em duas pessoas distintas.
“A resposta à terapia preconizada é estritamente individual e depende de inúmeros fatores. As características genéticas e as mutações presentes em cada grupo de células tumorais são as principais responsáveis por determinar se o tratamento terá sucesso rápido ou se precisaremos reajustar a rota do tratamento”, explica o Dr. Fábio Ribeiro Queiroz, pesquisador do Núcleo de Ensino Pesquisa e Inovação do Mário Penna.
Para superar essa barreira biológica, a ciência tem investido fortemente na transição de um modelo de tratamento único para a chamada medicina personalizada. É exatamente nessa linha de frente que o Núcleo de Ensino, Pesquisa e Inovação do Instituto Mário Penna atua. E, como marco desta jornada, pesquisadores do NEPI, em parceria com a Universidade Federal de Uberlândia e a Fiocruz Minas, identificaram uma assinatura genética diretamente relacionada à resistência ao tratamento quimiorradioterápico no câncer do colo do útero. O rigor e o impacto desta descoberta foram recentemente coroados com o aceite para publicação na renomada revista científica internacional Cancer Medicine.
Mas o que essa descoberta significa para o paciente? Essa assinatura funciona como uma impressão digital molecular do tumor. Ao mapearmos esse perfil antes do tratamento começar, seremos capazes de identificar, de antemão, se aquele tumor específico responderá à terapia padrão ou se apresentará resistência. Antecipar esse comportamento permite à equipe clínica desviar de rotas ineficazes desde o primeiro dia, garantindo maior eficiência na abordagem, menos desgaste físico para a mulher, menor tempo de internação e uma otimização inteligente de recursos no âmbito do SUS.
A necessidade de readequação terapêutica ao longo do tratamento pode ser um momento desafiador, o que torna fundamental a confiança na evolução científica. O principal alicerce na luta contra o câncer está na certeza de que a pesquisa avança diariamente, oferecendo respostas cada vez mais sólidas. Cada mudança na conduta médica é rigorosamente guiada por inovações tecnológicas que visam preservar a qualidade de vida e otimizar os resultados clínicos. Como cada organismo possui particularidades biológicas exclusivas, o esforço contínuo dos pesquisadores é direcionado a garantir que as estratégias de tratamento se tornem tão únicas e precisas quanto às necessidades de cada paciente.
Para saber mais sobre pesquisas e inovações realizadas no Instituto Mário Penna, fique atento às nossas publicações e acompanhe nossas redes sociais.
Texto escrito pelo pesquisador Biólogo, Doutor em Ciências da Saúde pela Fiocruz – Instituto René Rachou, Fábio Ribeiro Queiroz.



