Imagine um cenário em que o tratamento do câncer é desenhado sob medida para você, com base no seu próprio DNA. Essa é a essência da Medicina de Precisão e seu objetivo é claro: oferecer a terapia certa para o paciente certo, no momento exato. Isso não apenas salva vidas, mas também otimiza o rastreio, acelera o acesso ao tratamento e reduz custos desnecessários com terapias ineficazes. A abordagem está deixando de ser uma promessa ou uma exclusividade da saúde privada para se tornar realidade no Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente para as mulheres com câncer de mama.
Hoje, o câncer de mama é um dos maiores desafios da saúde pública e uma parcela significativa desses casos tem origem hereditária, ou seja, passa de geração em geração por meio de alterações genéticas. É motivo de muito orgulho apresentar os passos gigantescos que a medicina e o Mário Penna está dando para transformar a história de milhares de famílias.
Um Marco Nacional: A Incorporação do Teste BRCA no SUS pela CONITEC
Recentemente, o Brasil viveu um divisor de águas histórico na oncologia pública. Após recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC), órgão que aprova a entrada de novas tecnologias no SUS, o Ministério da Saúde oficializou a incorporação do teste genético para detecção de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 no SUS para pacientes com câncer de mama.
Essa conquista tira o mapeamento genético da exclusividade dos grandes centros privados e permite que o sistema público desenhe estratégias de tratamento e prevenção cada vez mais personalizadas para a nossa população.
O Avanço das Políticas Públicas em Minas Gerais
A saúde pública mineira vem dando passos gigantescos com a publicação da Resolução SES nº 10.609 (de 23 de outubro de 2025). O Estado definiu as diretrizes para garantir o acesso a esses testes genéticos a pessoas com alto risco de desenvolver câncer de mama e de ovário hereditários no âmbito do SUS/MG.
Para estruturar essa rede de cuidado, o Estado avançou ainda mais com a Resolução SES/MG nº 11.196 (20 de maio de 2026), que organizou a política e o credenciamento dos chamados Centros de Referência em Avaliação e Aconselhamento Genético (CRAAG). Essa medida define com clareza quem faz o quê, garantindo que o paciente seja acolhido, testado e orientado de forma segura e humanizada.
O Instituto Mário Penna na Linha de Frente: O Projeto PPSUS
É exatamente neste cenário de inovação, apoiando a decisão da CONITEC e buscando implementar as resoluções do Estado, que o Instituto Mário Penna consolida seu pioneirismo também na pesquisa. O Núcleo de Ensino, Pesquisa e Inovação da Rede teve a honra de aprovar um projeto, junto ao Ministério da Saúde e à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais – Fapemig, no Programa de Pesquisa para o SUS, coordenado por Dra. Letícia da Conceição Braga e Prof Dr. Agnaldo Lopes da Silva Filho, médico ginecologista, professor da Faculdade de Medicina da UFMG, subcoordenador da proposta, e composto também de uma brilhante equipe multidisciplinar.
O projeto tem como missão desenvolver um preditor in silico baseado em Inteligência Artificial, ou seja, um software capaz de classificar variantes genéticas com rapidez, reduzindo as incertezas no diagnóstico e oferecendo à equipe médica um suporte tecnológico robusto para decisões mais precisas. Para a realização desta pesquisa, pacientes com câncer de mama de alto risco recrutadas para o estudo receberão aconselhamento genético e testagem molecular.
O que isso significa para o paciente?
Significa a efetiva implementação da medicina personalizada no SUS. Com esse modelo assistencial integrado, seremos capazes de:
- Melhorar o diagnóstico precoce identificando familiares em risco antes mesmo que a doença se manifeste.
- Reduzir a mortalidade garantindo que pacientes de alto risco recebam monitoramento intensivo e tratamentos direcionados.
- Otimizar recursos (custos) evitando tratamentos genéricos que não funcionariam para aquele perfil genético e focando os recursos públicos no que realmente traz cura e qualidade de vida.
A ciência desenvolvida em nossos laboratórios está chegando à beira do leito, mostrando que o SUS tem, sim, capacidade de oferecer inovação tecnológica de ponta
Texto de: Dra. Letícia da Conceição Braga – Gerente de Pesquisa Translacional do Instituto Mário Penna e Coordenadora da Rede Mineira de Pesquisa Translacional em Oncologia



